A Vida de Lorenzo e o Mundo do Autismo

A Vida de Lorenzo e o Mundo do Autismo

HISTÓRIA COMPLETA DE LORENZO

Do diagnóstico de autismo à conquista da fala, da inclusão e de uma nova forma de caminhar

Uma história real de paternidade, cuidado, perseverança e esperança

Autor e pai: Wedey Thomaz Oliveira Dias

Governador Valadares – Minas Gerais | 2026

“Meu maior sonho é que Lorenzo seja independente, respeitado, incluído e livre para fazer aquilo de que gosta.”

 

Versão editorial preparada para o blog O Mundo Autista do Lorenzo. Fotografias e vídeos adicionais poderão ser inseridos posteriormente.

 

 

Nota editorial e proteção da história

Este texto foi construído a partir do relato de Wedey Thomaz Oliveira Dias, pai e responsável legal por Lorenzo, e de documentos médicos, terapêuticos, escolares, administrativos e fotografias da família. As passagens sobre sentimentos, lembranças e possíveis associações entre acontecimentos representam a experiência e a percepção do pai. Quando não existe conclusão médica individual, o texto não apresenta hipóteses como causas comprovadas.

Para publicação na internet, documentos que exibem CPF, RG, endereço, telefone, prontuário, número de processo, QR code, assinatura ou dados de terceiros deverão ser ocultados. Este relato tem finalidade informativa e humana; não substitui avaliação médica, psicológica, terapêutica, pedagógica ou jurídica individualizada.

Resumo da história

Lorenzo Thomaz Medeiros de Oliveira nasceu em 3 de fevereiro de 2016, em Governador Valadares, Minas Gerais. Sua gestação ocorreu em um contexto delicado, seu desenvolvimento infantil apresentou características singulares e o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, acompanhado de TDAH, chegou por volta dos três anos. A partir desse momento, começou uma jornada contínua de avaliações, terapias, escola, medicamentos, direitos e cuidados familiares.

Criado principalmente pelo pai, que assumiu seus cuidados ainda bebê e lutou judicialmente pela guarda, Lorenzo atravessou desafios importantes de comunicação, sono, alimentação, comportamento e coordenação motora. Ao longo dos anos, desenvolveu a fala, ampliou a interação social, passou a frequentar a escola com rotina mais estável e revelou uma memória marcante e um interesse especial por Geografia, música, idiomas e jogos.

Entre os quatro e cinco anos, começou a andar nas pontas dos pés. O quadro piorou progressivamente, com dor, rigidez dos tendões de Aquiles, quedas e dificuldade para correr e jogar bola. Depois de fisioterapia, hidroginástica, exercícios e avaliações especializadas, realizou cirurgia ortopédica bilateral em 23 de abril de 2026. O pós-operatório exigiu imobilização, cadeira de rodas, afastamento escolar e nova etapa de fisioterapia. Sua maior conquista física foi voltar a caminhar de forma mais natural.

1. Uma gestação cercada de preocupação

A história de Lorenzo começou em meio a inseguranças. Sua mãe era adolescente e, segundo o relato de Wedey, a gravidez não foi desejada por ela naquele primeiro momento. Wedey decidiu assumir a responsabilidade pela criança e se empenhou para que a gestação prosseguisse. O período gestacional, porém, foi atravessado por dificuldades alimentares, episódios de vômito e pouca variedade na alimentação.

Wedey recorda que a mãe consumia principalmente macarrão e carne, recusando feijão, verduras e outros alimentos. Ele não sabe afirmar se os vômitos decorriam dos enjoos comuns da gestação ou de outra razão. Anos depois, percebeu em Lorenzo algumas preferências parecidas: rejeição ao feijão em grãos, aceitação do feijão-preto quando batido no liquidificador, grande preferência por massas, macarrão e carne e resistência a determinadas verduras.

Também houve toxoplasmose durante a gravidez. Por volta do oitavo mês, ocorreu sangramento, e um médico prescreveu tratamento com a finalidade de conter o episódio e proteger a continuidade da gestação. Ao final, o líquido amniótico estava reduzido. Wedey afirma ter procurado o Hospital Regional por três vezes para que a cesariana fosse realizada, mas o parto terminou acontecendo em outra unidade hospitalar.

Com o passar dos anos, o pai se perguntou se a toxoplasmose, as limitações alimentares, possíveis carências nutricionais ou fatores ambientais poderiam ter influenciado o desenvolvimento do filho. Essas dúvidas fazem parte de sua experiência, mas não há, nos documentos reunidos, conclusão médica que atribua o autismo de Lorenzo a uma causa específica. Por responsabilidade, a história registra as intercorrências sem transformar possibilidades em certezas.

2. Os primeiros anos e um desenvolvimento singular

Lorenzo sempre foi percebido pelo pai como uma criança precoce e cheia de energia. Por volta dos dez meses, já demonstrava vontade de caminhar quando era segurado pelos braços. Entre um ano e dois meses e aproximadamente um ano e cinco meses a dois anos, começou a andar de maneira mais independente. Segundo a lembrança familiar, tentou caminhar antes de engatinhar de forma convencional.

A música apareceu cedo como fonte de interesse e regulação. Lorenzo assistia a vídeos no YouTube em diferentes idiomas e começou a reproduzir palavras que pareciam incompreensíveis para a família. Quando Wedey passou a assistir aos conteúdos ao lado dele, percebeu que o filho repetia palavras e trechos em espanhol e coreano. Aquilo que parecia uma fala sem sentido estava, na verdade, conectado ao universo audiovisual que a criança observava e memorizava.

Ao mesmo tempo, havia desafios intensos. Lorenzo era muito agitado, rodava repetidamente, olhava para cima, gritava, apontava para conseguir o que desejava e tinha dificuldade para se expressar verbalmente. Não dormia durante o dia e acordava durante a madrugada. Muitas vezes, entre duas e três horas da manhã, Wedey precisava trocar suas fraldas, e o menino já não queria voltar a dormir.

3. A separação familiar e a responsabilidade assumida pelo pai

Quando Lorenzo tinha aproximadamente dez meses, sua mãe foi para o estado da Bahia. A partir dali, Wedey assumiu a responsabilidade cotidiana pelo filho. Naquele período, ele havia sido aprovado em concurso público e precisou trabalhar em Jacinto, Minas Gerais. Sua mãe, avó de Lorenzo, tornou-se uma base fundamental e ajudou nos cuidados enquanto ele cumpria suas obrigações profissionais.

A guarda, entretanto, precisou ser formalizada judicialmente. Wedey ingressou na Justiça e, aproximadamente três meses depois, obteve a guarda provisória por decisão liminar. O processo ainda se prolongaria por cerca de oito anos, com audiências, documentos, deslocamentos e desgaste emocional, até a concessão da guarda unilateral definitiva.

Essa trajetória não foi apenas jurídica. Representou a tentativa de garantir estabilidade a uma criança que necessitava de rotina, acompanhamento e presença constante. Para Wedey, ser pai deixou de ser apenas um vínculo familiar: tornou-se uma missão diária, marcada por decisões que precisavam conciliar trabalho, terapias, escola, sono, despesas e proteção.

4. A creche, os primeiros alertas e a busca por respostas

A adaptação à creche foi difícil. Lorenzo chorava intensamente, passava mal e chegava a vomitar durante as crises. Como Wedey precisava trabalhar e o filho não conseguia permanecer bem na instituição, tornou-se necessário contratar babás em diferentes períodos.

Foi uma professora da creche quem apresentou o alerta que mudaria o rumo da família. Ela observou que Lorenzo não se relacionava nem participava das atividades como as outras crianças. A fala da professora não trouxe uma resposta pronta, mas indicou que havia algo importante a ser investigado.

A família buscou avaliação pelo Sistema Único de Saúde. Por volta dos três anos, Lorenzo recebeu diagnóstico compatível com Transtorno do Espectro Autista e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Em registros posteriores, o TEA foi descrito como nível 2 de suporte. O diagnóstico não foi recebido com serenidade. Wedey ficou em estado de choque e imaginou, naquele primeiro momento, que o filho talvez não aprendesse a ler, não falasse e não conquistasse autonomia.

Com o tempo, a informação substituiu parte do medo. O diagnóstico deixou de ser visto como sentença e passou a funcionar como um caminho para compreender necessidades, organizar intervenções e buscar direitos.

5. Ecolalia, comunicação e a conquista da fala

Nos primeiros anos, Lorenzo apresentava ecolalia: repetia palavras e frases ouvidas, como um eco, mas ainda não formulava perguntas, respostas ou frases adequadas ao contexto. Para quem não conhecia o autismo, a repetição podia parecer apenas imitação. Para a família, era ao mesmo tempo uma tentativa de comunicação e um sinal de que seria necessário apoio especializado.

Por volta dos quatro anos, após intervenções e estimulação, sua fala funcional começou a se desenvolver com maior clareza. O Centro Municipal de Referência e Apoio à Educação Inclusiva — CRAEDI Dr. Dilermando Dias Miranda — teve participação importante nessa fase. O atendimento especializado, associado ao acompanhamento clínico, ajudou Lorenzo a transformar repetições em comunicação cada vez mais significativa.

Ao longo dos anos, passou a construir respostas, formular perguntas e expressar vontades. A criança que inicialmente apontava e gritava para ser compreendida tornou-se um menino comunicativo, interessado nas pessoas e nos colegas. Essa evolução não aconteceu de um dia para o outro: foi resultado de repetição, vínculo, presença familiar, aprendizagem e intervenções contínuas.

6. Uma rotina de terapias sem desistência

Após o diagnóstico, iniciou-se uma jornada extensa com neuropediatras e equipe multiprofissional. Entre os profissionais lembrados pela família estão os neuropediatras Pedro Pacheco e Luidy, além de especialistas que acompanharam Lorenzo posteriormente. Foram prescritas medicações como risperidona e metilfenidato/Ritalina em determinadas fases, sempre dentro de acompanhamento médico.

Na Casa Unimed, Lorenzo recebeu terapia ocupacional, psicologia e fonoaudiologia, além de participar do grupo TEAPOIO. Também realizou intervenções no CRAEDI, fisioterapia na Univale, no CADEF e, posteriormente, em outros serviços. Em alguns períodos, chegava a ter três ou quatro atendimentos por semana.

Wedey calcula que o filho acumulou de sete a oito anos de tratamentos praticamente contínuos. Ele afirma que nunca deixou de levá-lo por decisão própria. Quando uma sessão não acontecia, geralmente era por indisponibilidade ou problema do profissional. A constância tornou-se uma regra familiar: evitar interrupções, reduzir perdas de habilidades e oferecer oportunidades para que Lorenzo permanecesse estável e continuasse evoluindo.

Esses cuidados também tiveram custo. Parte importante das consultas e intervenções foi paga de maneira particular. Wedey reconhece que conseguiu sustentar essa rotina por contar com apoio familiar, renda como servidor estadual e possibilidade de buscar alguma adequação de horários. Sua experiência o fez perceber que muitas famílias não têm a mesma estrutura e podem enfrentar filas, negativas, longos deslocamentos ou falta de recursos.

7. Trabalho, viagens, exaustão e a luta pela redução da jornada

Cuidar de Lorenzo enquanto trabalhava no sistema prisional exigiu de Wedey um esforço físico e emocional intenso. Depois de conseguir remoção para Guanhães, precisava sair de casa por volta das três horas da manhã e enfrentar aproximadamente três horas de viagem para assumir plantões de 24 horas. Em alguns plantões, dormia entre trinta minutos e uma hora e meia.

A rotina profissional, marcada por vigilância constante, tensão e desgaste, somava-se às noites interrompidas em casa. Wedey relata que desenvolveu esgotamento, sintomas depressivos e crises de ansiedade. Mesmo assim, as consultas e terapias do filho continuavam ocupando lugar central em sua agenda.

A necessidade de acompanhar Lorenzo levou à busca administrativa e judicial pela redução da jornada. O processo percorreu setores da SEJUSP e da SEPLAG, passou por perícia e enfrentou demora e manifestações desfavoráveis. Em determinado momento, uma decisão judicial assegurou que Wedey trabalhasse 50% da jornada enquanto a questão prosseguia.

A luta por tempo para cuidar do filho não representava afastamento da responsabilidade profissional. Tratava-se de compatibilizar duas responsabilidades reais: o serviço público e o acompanhamento de uma criança com necessidade permanente de suporte, escola, terapias e cuidados médicos.

8. Escola, aprendizagem e convivência

Hoje Lorenzo possui uma rotina escolar mais próxima da de outras crianças de sua idade. É comunicativo, gosta dos colegas e demonstra interesse em participar. Ainda enfrenta momentos de frustração, especialmente quando não compreende uma atividade ou acredita que não conseguirá realizá-la.

A Matemática e algumas tarefas de raciocínio lógico são mais desafiadoras. Em certas ocasiões, mesmo sabendo executar uma atividade, precisa de incentivo para se esforçar e concluí-la. Wedey olha para essas situações com realismo e afeto: reconhece as dificuldades sem reduzir o filho a elas.

Em contrapartida, Lorenzo ama Geografia e possui excelente memória. A facilidade para reter informações, músicas, palavras, cenas e assuntos de interesse acompanha sua história desde os vídeos em outros idiomas. A escola, quando acolhedora e capaz de compreender o ritmo individual, torna-se um espaço não apenas de conteúdo, mas de pertencimento e construção de autonomia.

9. Sensibilidade alimentar, interesses e formas de regulação

A seletividade alimentar permanece presente. Lorenzo prefere massas, macarrão e carne, rejeita determinadas verduras e aceita feijão-preto principalmente quando os grãos são batidos. Em vez de interpretar essas escolhas apenas como teimosia, a família aprendeu a reconhecer que textura, aparência, cheiro, previsibilidade e experiências sensoriais podem influenciar a alimentação.

A música sempre teve efeito especial. Quando menor, gostava de musicoterapia e de músicas eletrônicas. Segundo o pai, os sons pareciam ajudá-lo a desligar-se do excesso de estímulos: ele se acalmava, pulava ou dançava. Atualmente, um de seus interesses principais é jogar videogame no celular. Esses interesses funcionam como lazer, motivação e, em alguns momentos, ferramenta de regulação.

10. O início da marcha na ponta dos pés

No início da infância, Lorenzo andava apoiando os pés de maneira considerada normal pela família. Entre os quatro e cinco anos, começou a caminhar nas pontas dos pés. Wedey percebeu que a mudança ocorreu durante uma fase em que o filho utilizava risperidona e passou a se perguntar se poderia existir relação com a rigidez muscular descrita entre possíveis efeitos adversos. Entretanto, nenhum documento apresentado estabelece que a medicação tenha causado a alteração da marcha; por isso, essa associação permanece como percepção e dúvida do pai, não como conclusão médica.

O que se tornou indiscutível foi a progressão do quadro. Lorenzo passou a sentir dores e rigidez nos tendões de Aquiles. Suas pernas se cruzavam ou se embaralhavam durante a corrida, provocando quedas. Na rua, os tombos se tornaram frequentes. Jogar bola era difícil, e correr sem cair parecia cada vez mais distante.

A família tentou alternativas conservadoras: exercícios com personal trainer, hidroginástica, fisioterapia na Univale, acompanhamento no CADEF e atendimentos em outros serviços. Durante aproximadamente um ano, houve esforço concentrado para melhorar a amplitude dos tornozelos, fortalecer a musculatura e reorganizar o padrão da marcha.

11. Quando a fisioterapia já não era suficiente

Os relatórios fisioterapêuticos registraram encurtamento acentuado da musculatura da panturrilha, limitação da dorsiflexão, apoio predominante no antepé e alterações bilaterais relacionadas à marcha. Houve ganhos de organização motora, mas a deformidade continuou evoluindo.

Lorenzo foi avaliado por ortopedistas da rede pública e por profissionais particulares. Segundo Wedey, três ortopedistas particulares e especialistas do SUS concluíram que o tratamento conservador já não seria suficiente. O quadro foi descrito como equino rígido bilateral, com necessidade de correção cirúrgica.

A indicação foi emocionalmente difícil. Lorenzo não queria operar. Dizia ao pai que estava sendo torturado e prometia que se esforçaria para andar apoiando os pés. Wedey sabia, porém, que não se tratava mais de falta de esforço. O encurtamento e a rigidez impediam que a vontade da criança, sozinha, revertesse o problema.

12. A preparação e a cirurgia bilateral

Em março de 2026, Lorenzo passou por consulta ortopédica especializada, exames laboratoriais e avaliação pré-anestésica. A documentação registrou que estava em condições clínicas para o procedimento, com orientações de jejum, medicação e consentimento informado.

Em 23 de abril de 2026, aos dez anos, Lorenzo foi internado no Hospital Unimed de Governador Valadares e submetido à cirurgia ortopédica bilateral pelo Dr. Deodoro Gonçalves. Os documentos utilizam descrições como correção bilateral dos pés e pós-operatório dos tendões de Aquiles. Sem o relatório operatório completo, a história preserva essa formulação geral e evita atribuir uma técnica específica.

Lorenzo no hospital após a cirurgia ortopédica bilateral, em abril de 2026. Acervo da família.

A operação não apagou imediatamente o sofrimento que a antecedeu. As duas pernas foram imobilizadas com gesso, exigindo adaptação completa da rotina. Para uma criança ativa, comunicativa e determinada a se movimentar, permanecer sem apoiar os pés era um desafio diário.

13. Sessenta dias de cuidado intensivo

O afastamento escolar foi estabelecido por 60 dias a partir da cirurgia. Durante a recuperação, Lorenzo precisava ser carregado para tomar banho, deslocar-se e realizar diversas atividades. Wedey o pegava no colo repetidas vezes e precisava vigiar para que não apoiasse os pés antes da autorização médica.

Mesmo imobilizado, Lorenzo tentava ficar em pé. Subia e descia as escadas se arrastando, resistia a permanecer na cama e exigia atenção permanente. Entre aproximadamente 25 e 42 dias após o procedimento, de acordo com a lembrança do pai, os gessos foram retirados e iniciou-se o uso de botas ortopédicas.

Durante a recuperação em casa, Lorenzo utilizou cadeira de rodas e precisou adaptar as atividades cotidianas. Acervo da família.

A fotografia de Lorenzo sentado na cadeira de rodas, tentando realizar sozinho uma atividade cotidiana, resume a fase: dependência física temporária, desejo de autonomia e insistência em continuar participando da própria rotina.

14. Reabilitação e a conquista de uma nova marcha

Depois dos 60 dias, teve início uma nova etapa de fisioterapia. Lorenzo realizou dez sessões na Casa Unimed e, em 16 de agosto de 2026, continuava em acompanhamento no Centro de Tratamento de Saúde, na região central de Governador Valadares. A finalidade era corrigir o padrão da marcha e evitar o retorno ao apoio constante nas pontas dos pés.

A reabilitação também exigia que o corpo reaprendesse movimentos. Após anos caminhando no antepé, não bastava retirar o gesso: era necessário recuperar força, mobilidade, segurança e confiança. Cada apoio do calcanhar, cada passo sem queda e cada avanço na fisioterapia representavam uma reconstrução.

Para Wedey, a maior conquista foi ver o filho caminhar de maneira natural, como qualquer outra pessoa. Depois de dores, quedas, limitações, consultas, despesas, medo da cirurgia e semanas de imobilização, aquele simples ato ganhou dimensão extraordinária.

15. Quem é Lorenzo hoje

Lorenzo não é apenas um conjunto de diagnósticos ou relatórios. É um menino comunicativo, sociável e dotado de excelente memória. Gosta de estar com os colegas, aprecia Geografia, diverte-se com jogos no celular e mantém uma relação especial com a música.

Ainda pode apresentar crises diante de frustrações, principalmente quando uma tarefa parece difícil ou quando algo não acontece como esperava. Também necessita de incentivo para algumas atividades escolares. Isso faz parte de sua realidade, mas não resume sua identidade.

A criança que um dia não conseguia formular perguntas hoje conversa. A criança que enfrentava dificuldade para permanecer na creche hoje participa da rotina escolar. O menino que caiu muitas vezes por causa da marcha na ponta dos pés passou por cirurgia e reabilitação para caminhar com mais estabilidade. Sua história é feita de desafios concretos, mas também de capacidades que se revelaram quando houve tempo, suporte e oportunidade.

16. O que a paternidade ensinou a Wedey

A trajetória de Lorenzo transformou Wedey. O medo inicial de que o filho não aprendesse deu lugar à compreensão de que desenvolvimento não segue um único calendário. A exaustão mostrou que o cuidador também precisa de cuidado. As negativas administrativas revelaram a importância de conhecer direitos. As terapias ensinaram que constância e vínculo podem produzir avanços que não aparecem de forma imediata.

Wedey não romantiza a experiência. Reconhece que o tratamento é caro, cansativo e muitas vezes solitário. Existem filas, deslocamentos, burocracia, dificuldades diagnósticas e falta de apoio. Ao mesmo tempo, reconhece os privilégios que lhe permitiram pagar atendimentos, contar com uma família forte e reorganizar parte da rotina de trabalho.

Essa consciência não diminui seu esforço. Ao contrário, amplia a razão para compartilhar a história: se uma família com alguma estrutura já enfrenta tantas barreiras, é necessário tornar informação e acolhimento mais acessíveis para quem enfrenta a mesma jornada com ainda menos recursos.

17. O nascimento de O Mundo Autista do Lorenzo

O projeto O Mundo Autista do Lorenzo nasceu do desejo de transformar experiência em serviço. Wedey quer que o blog ajude famílias a reconhecer sinais, procurar acompanhamento, compreender terapias, conhecer direitos, lutar por inclusão e enxergar possibilidades além do medo inicial.

O propósito não é apresentar uma fórmula universal. Cada pessoa autista possui características, necessidades e caminhos próprios. O objetivo é mediar histórias, divulgar informação responsável, influenciar vidas e oferecer acolhimento a quem se sente perdido depois de um diagnóstico.

Para Wedey, ser luz significa dizer a outra família: vocês não estão sozinhos. Significa explicar que a evolução pode ser lenta, que tratamentos exigem constância e que também é necessário respeitar limites. Significa defender que inclusão não é favor, mas participação real na escola, na saúde, na comunidade e na vida em sociedade.

18. Um sonho chamado independência

O maior sonho de Wedey não é que Lorenzo se torne outra pessoa. É que consiga construir uma vida própria, fazer o que gosta, ser compreendido e não sofrer discriminação. É que seja respeitado como cidadão, incluído nas decisões que lhe dizem respeito e reconhecido por suas capacidades.

“Que ele seja independente, faça o que gosta, seja entendido, respeitado e aceito como parte da sociedade.”

 

A independência, nessa história, não significa ausência completa de apoio. Significa ter voz, escolhas, habilidades e uma rede que ofereça suporte na medida necessária. Significa poder aprender, trabalhar, conviver, amar, errar, desenvolver interesses e participar da sociedade sem precisar esconder quem é.

Conclusão: uma história que continua

A história de Lorenzo não termina com o diagnóstico, com a guarda definitiva ou com a cirurgia. Ela continua em cada sessão de fisioterapia, em cada desafio escolar, em cada conversa, jogo, música e nova conquista. Continua também nas perguntas ainda sem resposta e nos planos que serão construídos à medida que ele cresce.

Ao olhar para trás, Wedey enxerga noites sem dormir, viagens antes do amanhecer, plantões exaustivos, audiências, despesas, consultas, terapias e o medo de não conseguir. Mas também enxerga o filho falando, convivendo com colegas, demonstrando preferências, aprendendo e voltando a caminhar com mais naturalidade.

O Mundo Autista do Lorenzo nasce desse encontro entre dor e esperança. Não para afirmar que todas as famílias terão a mesma trajetória, mas para mostrar que informação, acompanhamento, inclusão, direitos e presença podem mudar caminhos. A história de Lorenzo é singular. Ao ser compartilhada com responsabilidade, pode ajudar outras famílias a compreender que nenhuma criança deve ser reduzida a um diagnóstico e que nenhuma família deveria atravessar essa jornada sem orientação e acolhimento.

Perguntas frequentes para o blog

Quando Lorenzo recebeu o diagnóstico de autismo?

O diagnóstico foi obtido por volta dos três anos, após observações feitas na creche e avaliação pelo SUS. Também foi identificado TDAH.

Quais sinais chamaram a atenção?

Dificuldade de interação, baixa participação nas atividades, ecolalia, agitação, movimentos repetitivos, gritos, comunicação por apontar, alterações do sono e crises diante de mudanças ou frustrações.

Quando Lorenzo começou a falar?

Segundo o pai, a fala funcional começou a se desenvolver por volta dos quatro anos, com apoio de intervenções terapêuticas e educacionais.

Por que ele precisou de cirurgia?

O andar persistente nas pontas dos pés evoluiu para rigidez e encurtamento bilateral, com dor, quedas e dificuldade para correr. Após tentativas conservadoras e avaliações ortopédicas, foi indicada correção cirúrgica.

A cirurgia resolveu imediatamente a marcha?

Não. A cirurgia foi seguida de imobilização, uso de cadeira de rodas, botas ortopédicas e fisioterapia para recuperar mobilidade e reorganizar o padrão da marcha.

Quais terapias fizeram parte da trajetória?

Fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional, fisioterapia, intervenções educacionais, atividades aquáticas e acompanhamento médico especializado.

Qual é a missão do blog?

Compartilhar informação responsável, histórias reais, direitos, inclusão e caminhos de cuidado para famílias, professores e demais pessoas interessadas no autismo.

 

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Intenção de buscaInformacional, acolhimento familiar e relato de experiência

Referências documentais utilizadas

  • Relatórios de neuropediatria, psicologia, fonoaudiologia e CAPS Infantil, 2025.
  • Relatórios de fisioterapia da Univale e do CADEF, 2025.
  • Encaminhamentos, avaliações ortopédicas e solicitação cirúrgica, 2026.
  • Avaliação pré-anestésica e termos de consentimento, março e abril de 2026.
  • Documentos de internação, afastamento escolar e acompanhamento pós-operatório, 2026.
  • Autorizações e encaminhamentos de fisioterapia pós-operatória, junho de 2026.
  • CIPTEA e documentos de identificação do diagnóstico, preservados sem exposição de dados pessoais.

Relato autobiográfico de Wedey Thomaz Oliveira Dias, agosto de 2026